sexta-feira, 12 de março de 2021

Métricas CoVid 101

Somos todos os dias bombardeados por números ligados à pandemia, por toda a gente, deste os mais altos magistrados da Nação aos mais reles comentadores, páginas nas redes sociais, posts como este, etc.
Os números, por si só, não têm normalmente significado. Devem estar associados a uma grandeza e a uma unidade de medida.
Este é um slide da apresentação realizada ontem pelo primeiro ministro sobre as regras de desconfinamento:

Comunicação do PM de 11 de Março de 2021

Uma imagem deve apelar à memória visual daqueles a quem é dirigida. Aqui, fica-se com a ideia de que há um número, 120, e quatro caixa, numeradas de 1 a 4, de baixo para cima, e um X numa delas, a verde.
O mais preocupante será aquele 120... 120 casos por cem mil habitantes, a 14 dias, como foi dito repetidamente...
Façamos as contas. Se são 120 casos por cem mil habitantes, então por dez milhões de serão 100 vezes mais, ou seja, 12000, a 14 dias... E isto que quer dizer?... 
Quantos casos foram anunciados ontem? 627. Então, estamos bem, estamos mal, muito longe, muito perto? Já vi tanta gente com dúvidas nesta percepção, que me interrogo da eficácia deste debitar de números à toa, quando estes indicadores deveriam ser claramente explicados e ser referências seguras do comportamento de cada um e de todos.
Vamos a isso!
Os casos podem ser simplesmente contados, tantos por dia, ou apresentados como médias, tantos por dia em média, nos últimos 7 dias, por exemplo. O mesmo com os óbitos.

Casos e óbitos dia a dia e médias de 7 dias

As médias de 7 dias absorvem (filtram) os efeitos de fim de semana, já que cada valor é obtido somando os valores de todos os dias da última semana, e dividindo por 7, e têm uma evolução mais assertiva.
Quando comparamos territórios diferentes, estes valores absolutos não devem ser utilizados, apesar de ouvirmos constantemente quantos óbitos ocorreram no Brasil ou nos Estados Unidos, sem se ter em conta a respectiva população.
Retirei agora mesmo do Worldometers esta tabela dos 10 países com mais casos acumulados por milhão de habitantes

10 países com mais casos por milhão de habitantes

Notam-se aqui vários efeitos que devem ser tidos em conta, nomeadamente, por uma lado, os países pequenos, mais homogéneos, como Andorra, Gibraltar ou San Marino, por exemplo, em que o vírus atinge mais facilmente mais população, e por outro lado, a consideração de todos os casos, desde o primeiro dia.
Será que isso interessa para efeito da determinação do estado sanitário num dado momento?
Tendo em conta o período de incubação do vírus, o ECDC considera como principal indicador o número de casos acumulados nas duas últimas semanas, por cem mil habitantes.
Hoje, 12 de Março, se tomarmos o número de casos registados nas duas últimas semanas, subtraindo do número de casos registado hoje (813512) o número de casos registado há duas semanas (802773), encontramos 10739, e dividindo por 103 (10.3 milhões de habitantes) obtemos 104.3, que será o indicador nacional de hoje, e portanto dentro do limite de 120 a que se referia o quadro inicial. Este gráfico mostra a evolução do nosso indicador de incidências durante toda a pandemia, e que ainda recentemente esteve acima de 1600. Realmente, entre 10 de Outubro do ano passado e 9 de Março estivemos sempre acima de 120!

Incidências acumuladas nos últimos 14 dias / 100k habitantes

Este valor, por sí só, não caracteriza a situação dinâmica, e, no mínimo, convém associar outro valor, que nos indique se o indicador de incidências está em fase de crescimento ou de decrescimento. Os engenheiros e os matemáticos chamam a isso derivada da função. Os epidemiologistas gostam de falar do índice de transmissibilidade Rt, que tenta traduzir isso mesmo através da ideia de quantos infectados um infectado contagia em média. Se Rt for maior que um, o indicador de incidências está em crescimento, e se for menor que 1, está em decrescimento.
Chegamos assim aos quatro quadrantes da figura inicial: do lado esquerdo, Rt menor que 1 e do lado direito Rt maior que 1.

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